Minha experiência de palestrar no TEDx: a preparação e o que aprendi

Em de dezembro de 2018, eu fui umas das palestrantes no evento TEDxHUBerlin – o que foi uma grande experiência. Além de discutir sobre o tema da minha palestra, muitos dos meus amigos e colegas me perguntam, “Como foi o processo?” “Quantas vezes você praticou?” “Você ficou nervosa?” “Como a plateia reagiu?”. Então eu pensei em compartilhar aqui como toda essa experiência do TEDx foi para mim.

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Photo by SeeSaw Agency | Gregor Zielke

Por volta de agosto de 2018, eu me deparei com um post no Facebook do TEDxHUBerlin com uma chamada para palestrantes. Eu gosto muito de falar em público, e tenho o feito desde cedo: no Rio, quando eu tinha apenas 14 anos, fiz um discurso em inglês para 3.000 pessoas na minha formatura do curso de inglês. Durante meu doutorado, eu me envolvi muito com divulgação científica e fiz apresentações, por exemplo, em um Science Slam e no Soapbox Science duas vezes, entre outros eventos. Então, sempre foi um sonho meu ser uma palestrante do TED/TEDx, que é provavelmente a plataforma de palestras mais conhecida do mundo.

Meu primeiro pensamento quando vi o post foi: “Eu adoraria fazer isso, mas acho que nunca vou ser selecionada…” E então meu segundo pensamento foi: “mas não custa nada tentar… eu não tenho nada a perder mesmo…”

Então, algumas semanas depois, eu decidi me inscrever. Tive que responder perguntas em um formulário online sobre a minha motivação e mostrar provas da minha experiência como palestrante. Eu incluí o vídeo do meu Science Slam em 2017 (em alemão), que foi outra experiência interessante (você pode assisti-lo aqui).

Depois de enviar o formulário,  não pensei mais muito sobre isso e viajei de férias com meus pais, que estavam na Europa naquela época. Cerca de um mês depois, eu ainda não tinha tido nenhuma resposta deles, então imaginei que não havia sido selecionada. Mas então, no dia 21 de outubro, recebi um e-mail me convidando para ser uma palestrante. Eu me lembro que estava em voltando para Berlim de trem quando li a mensagem no meu telefone, e tive vontade de pular de animação, mas tive que me conter para evitar olhares de estranheza dos outros passageiros.

Logo depois, a ficha caiu: eu tinha menos de 6 semanas até o dia do evento! Eu tinha que fazer muito bom uso do tempo.

O primeiro passo foi entrar em contato com os organizadores do evento para obter mais detalhes. Eu tive a liberdade de escolher o tema da minha palestra, e já havia sugerido alguns na minha inscrição. Eu decidi optar por “coisas que precisam mudar no mundo acadêmico” por diversas razões: 1) é um tema bastante pessoal para mim e com o qual eu me identifico; 2) eu tinha exemplos da vida real da minha própria experiência para usar na história; 3) o TEDx onde eu ia palestrar era na HU Berlin (Universidade Humboldt), então a maior parte do público presencial provavelmente seria de estudantes, para quem esse tema seria mais relevante; 4) eu já havia escrito e postado um artigo no LinkedIn sobre o mesmo tema em 2016 e recebi um enorme feedback positivo de pessoas dizendo o quanto elas concordavam (atualmente tem 70.000 visualizações).

Depois de definir o tema, meu plano era claro: eu iria escrever o roteiro da palestra, editá-lo até ficar feliz com o resultado e só então começaria a memorizar o texto. 99% das palestras que eu faço não são decoradas palavra por palavra, mas um TEDx tinha que ser. É importante demais pra confiar em improvisos no palco, sem mencionar que seria filmado, então tinha que ser tudo certinho. E não faria sentido tentar decorar o texto antes de chegar à versão final, pois as mudanças só iriam complicar a memorização.

Eu já tinha bastante experiência em escrever e editar, então sabia que seria um processo e que meu texto passaria por várias transformações. Mesmo assim, essa parte não foi fácil. Eu só tinha algumas semanas para conceituar, escrever, digerir, editar, memorizar, fazer os slides e praticar. Além disso, eu tinha acabado de começar um emprego em tempo integral em consultoria com horas bem puxadas. Quando eu havia sonhado em dar uma palestra no TED ou TEDx, imaginei que teria meses para me preparar. Mas na realidade eu tinha que me virar com só algumas semanas. Lá no fundo eu sabia que conseguiria, mas houve momentos que foram bastante estressantes, quando eu ainda não conseguia ver a versão final do texto se formando. Meus pais e meu namorado foram grandes apoiadores nesse momento, me assegurando que eu chegaria lá.

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Photo by SeeSaw Agency | Gregor Zielke

Eu aprendi lições valiosas enquanto escrevia o texto da minha palestra. Para começar, a primeira versão tinha tudo o que eu queria dizer, mas não estava soando como uma palestra – era mais um artigo. Então tive que reescrever o texto, prestando atenção em como ele iria soar para uma plateia ao vivo, e não para um leitor. Bastante como um roteiro para uma peça ou um filme.

O segundo ponto que eu aprendi é que não se pode dizer tudo em uma palestra. Meu tema era “coisas que precisam mudar no mundo acadêmico” – e existem taaantas coisas. Eu também queria falar sobre os problemas do sistema de publicação científica, de saúde mental de graduandos e de desigualdade de gênero na ciência. Os organizadores do TEDx apresentaram os palestrantes a um coach de comunicação que fez observações sobre nossos textos. O coach disse que eu não precisava melhorar nada no jeito que eu estava falando e apresentando o meu discurso – isso estava ótimo. Mas ele sugeriu que eu focasse em um único tópico para poder cobri-lo direito – afinal, a palestra só poderia ter 18 minutos no máximo. Eu concordei e reestruturei o texto para focar na minha mensagem principal.

Desde o início, eu também queria que a minha palestra fosse o mais divertida possível – então adicionei várias piadas, e as testei com alguns amigos, porque nunca se sabe se o público do evento vai achá-las engraçadas ou não.

Finalmente cheguei à versão definitiva da minha palestra, com a qual fiquei bastante satisfeita. Isso foi depois de várias rodadas mostrando as mudanças e recebendo comentários dos meus dois editores favoritos: meu pai e meu querido amigo, Ahmed Khalil. Os dois têm muita experiência em edição, perfeito domínio do inglês e me conhecem muito bem – eles sabiam as conclusões a que eu queria chegar e como eu soaria dizendo aquelas palavras em voz alta. Um grande obrigada aos dois pelas suas perspectivas!

Eu tive uma semana para memorizar minha palestra palavra por palavra e praticá-la. Eu costumo achar fácil decorar textos, então esse tempo foi suficiente para mim. Eu imprimi o texto (4 páginas e meia) e o repeti em voz alta em casa, tentando ler cada vez menos do papel. Repeti, repeti e repeti. Fiz meus slides em algumas horas e comecei a praticar com eles também. Eu praticava uma vez antes de ir trabalhar e uma vez depois de chegar em casa. Acho que todas as paredes do meu apartamento ouviram esse texto pelo menos umas 5 vezes. Eu tive um ensaio geral no local alguns dias antes do evento, mas sem o palco ou microfone.

No grande dia, 1º de dezembro de 2018, eu na verdade também tive um outro evento – sobre carreiras para cientistas – que eu tinha ajudado a organizar, então passei o dia todo ocupada, conversando com alunos de pós-graduação sobre meu novo trabalho (também muito a ver com o tópico da minha palestra). No final da tarde, fui direto para o local do TEDx: die Heilig-Geist-Kapelle (a Capela do Espírito Santo), que não funciona mais como uma capela, mas como um local para eventos. Fica dentro de um edifício histórico da Universidade Humboldt em Berlim Mitte, onde se encontra a Faculdade de Administração e Economia. Eu era a última palestrante em um programa com 9 apresentações. Quando eu cheguei, havia ainda duas palestras antes da minha, mas eu só pude assistir à primeira, já que durante a outra eu estava nos bastidores colocando o microfone.

Quando me chamaram para o palco, eu surpreendentemente não estava nervosa. Eu me senti confortável, no meu habitat natural. Eu estava muito presente e ciente do meu entorno. Tudo correu bem: eu me lembrei do texto todo (que era uma das minhas maiores preocupações) e as pessoas riram da maioria das minhas piadas irônicas (mesmo que a gravação de vídeo não tenha captado muito, já que não havia microfone para o público). Minhas duas pessoas favoritas em Berlim, meu namorado e meu amigo Ahmed, estavam na plateia.

Logo após o fim da palestra (e do evento), várias pessoas da plateia vieram falar comigo e me deram um feedback muito positivo. Elas disseram que eu as inspirei a procurar opções de carreira fora do mundo acadêmico, que falei muito bem e com entusiasmo, que sou uma oradora natural e que deveria fazer isso com mais frequência; que não dava pra dizer que eu tinha memorizado o texto, pois eu falei naturalmente, como se o estivesse dizendo pela a primeira vez. Também disseram que a minha palestra foi a melhor do dia! Eu pensei que tinha sido só por falar, mas mais tarde uma das organizadoras do evento me disse que ela tinha ouvido o mesmo de outras pessoas da plateia!

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Photo by SeeSaw Agency | Gregor Zielke

Falando da equipe do evento, também devo dizer que adorei conhecer os organizadores do TEDx com quem interagi: Rawan Alraish, Priianca Banerji, Senyao Hou e Konstantina Nathanail. Meus agradecimentos a eles pelo trabalho duro e por terem sido tão gentis comigo!

Depois daquele dia, obviamente eu estava muito curiosa para assistir ao vídeo da minha palestra. Quando finalmente saiu, fiquei bastante feliz com o resultado. É claro que sempre há coisas que você gostaria de mudar, mas acho que eu fiz o melhor possível com o tempo que tive.

Depois de alguns dias extras de trabalho, também consegui colocar legendas em inglês e português na minha palestra, algo que era muito importante para mim, para que pessoas com deficiência auditiva ou que não falam inglês também pudessem entender. Tudo teve que ser feito através de uma plataforma que eu não conhecia e sobre a qual aprendi: a dos tradutores do TED, que são centenas de voluntários que traduzem e transcrevem todos os tipos de palestras do TED. A minha palestra agora também tem legendas disponíveis em espanhol graças a eles! (Olha que legal!) Meus agradecimentos aos tradutores e revisores que dedicaram seu tempo para trabalhar nas legendas da minha palestra: Leonardo Silva, Daniela Pardo e Silvina Katz.

Eu realmente acredito nas palavras que disse e estou muito feliz por poder propagar essa ideia. Desde então, tenho recebido muitos comentários positivos, de amigos, colegas, clientes, e de várias pessoas que eu não conhecia antes. Graças à essa exposição, fui convidada para dar outras palestras e várias pessoas se informaram sobre a empresa onde eu trabalho e algumas mostraram interesse em trabalhar lá. Os programas de pós-graduação em que me formei me deram total apoio e até postaram a minha palestra em seus sites: esses são o programa de mestrado Neurasmus e o Einstein Center for Neurosciences Berlin, que está vinculado ao programa de doutorado que eu fiz.

Sou muito grata por ter tido essa oportunidade e experiência única! Foi realmente um sonho que se tornou realidade para mim.

Resumindo: a jornada de preparar e apresentar uma palestra no TEDx não foi fácil (a parte da preparação sendo muito mais difícil do que a apresentação, na minha opinião), mas extremamente recompensadora! 🙂

Assista ao meu TEDx abaixo e compartilhe à vontade: