7 coisas que você precisa saber ao se mudar para a Alemanha

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Essas dicas são pra quem está se mudando, ou acabou de se mudar, para a Alemanha. A maioria delas é relacionada à burocracia alemã ou como evitar multas. Mas, fazer o quê – essas são as coisas que você precisa saber com mais urgência – antes mesmo de descobrir onde fica o Biergarten mais próximo. Então vamos começar a nos acostumar com as regrinhas alemãs:

1. Você tem que registrar seu endereço em um escritório do governo

Uma vez tendo seu endereço fixo no seu novo lar alemão, você precisa marcar um horário (Termin) em um escritório do governo (Bürgeramt) na cidade onde você agora mora para fazer um registro (Anmeldung) do seu endereço. Leve seu passaporte e seu contrato de aluguel com você. Desta forma, o governo alemão sabe onde você e todos os outros cidadãos moram. O registro é gratuito e se recusar ou demorar a fazê-lo pode te causar uma multa. Oficialmente, ele deve ser feito dentro das suas duas primeiras semanas na Alemanha.

Se você se mudar para um novo endereço, você precisa se registrar novamente (Ummeldung) e se você sair da Alemanha, é necessário cancelar o registro (Abmeldung).

Basta digitar no Google: Anmeldung + nome da cidade alemã onde você vive, e você encontrará o site oficial para marcar o horário e obter mais informações.

2. Ter seguro-saúde é obrigatório

Ou seja: mesmo sendo caro, não tem jeito. Você vai precisar apresentar seu número do seguro de saúde para poder assinar um contrato de trabalho, por exemplo. A boa notícia é que, por lei, o empregador paga metade do custo. Existem dois tipos de seguro-saúde na Alemanha: público e privado. E há várias empresas que oferecem pacotes diferentes por preços diferentes. A grande maioria dos alemães tem um seguro público que cobre tudo. Alguns estrangeiros preferem ter um seguro privado se não forem permanecer por um longo período de tempo, porque às vezes podem ser mais baratos. Pesquise na internet, pergunte a colegas e compare as diferentes opções para fazer a melhor escolha para você.

3. Ter uma conta bancária alemã não é obrigatório oficialmente, mas na prática é

Você vai precisar de uma conta bancária alemã para pagar seu aluguel e seguro-saúde, para receber seu salário ou qualquer tipo de pagamento, para obter um plano de telefone alemão ou internet em casa. Então, mesmo que não haja uma lei dizendo que quem mora na Alemanha precisa ter uma conta bancária alemã, é provável que você não consiga se virar sem uma.

4. Você deve carimbar o seu bilhete ao usar o transporte público

Isso parece óbvio para a maioria das pessoas que estão acostumadas com a cultura europeia, mas pode ser confuso para pessoas que vêm para a Alemanha de mais longe. Diferente de outros países da Europa, o transporte público em cidades alemãs geralmente não possui catracas onde você tem que colocar seu bilhete para entrar. Tudo é baseado na confiança. Você deve sempre ter um bilhete válido e estampado ao usar o metrô, trens, bondes ou ônibus na Alemanha. Os controladores de ingressos podem aparecer a qualquer momento (à paisana, sem um uniforme específico) e pedir que você mostre seu bilhete. Se não estiver carimbado e válido, você será multado (atualmente €60 em Berlim).

5. Fazer download pirata de música e mídia gera multas

Faça o que fizer, NÃO faça download de músicas, filmes ou programas de TV pela internet. Isso inclui torrent: nunca use torrent na Alemanha. É melhor até deletar os programas de torrent que você possa ter no seu computador. Eles sabem como te encontrar (se lembra do Anmeldung?), mesmo através da identificação do seu computador, e bastante gente, geralmente estrangeiros, é multada por esse motivo. Eu já ouvi exemplos reais de estrangeiros que não sabiam dessa regra e receberam uma multa de mais de €800. Então, melhor não arriscar. A solução: usar streaming online não vai te causar problemas, ou pagar pela mídia que você está usando (através de Netflix, Apple Store, Spotify, etc.).

6. Existe um imposto para TV e rádio

Cada residência na Alemanha paga um imposto pelo uso de TV e rádio (Rundfunkbeitrag) – mesmo que você não possua nenhum aparelho de TV ou rádio. É uma taxa fixa de €17,50 por mês – por residência, não por pessoa. Esse dinheiro é destinado a sustentar os canais públicos da Alemanha. Depois de registrar seu endereço (veja #1), você receberá uma carta instruindo-o a pagar a taxa mensal compulsória.

Para mim, como estrangeira, esta regra não faz muito sentido, já que os canais de TV e rádio ainda mostram comerciais – que na teoria existem justamente para sustentar os canais financeiramente. Mas todos os imigrantes concordam que não há o que fazer, e mesmo que você tente ignorar o imposto, o sistema vai vencer no fim das contas e você terá que pagar um valor ainda maior.

7. Você pode receber dinheiro de imposto de volta

Vamos terminar esta lista com uma boa notícia: se você for ficar na Alemanha por um tempo, você pode ser elegível para receber reembolso de uma parte dos impostos (Steuererklärung) uma vez por ano. Se o seu salário vier de uma bolsa de estudos, ele é isento de impostos, então você provavelmente não terá direito a recebê-lo. Mas se você está trabalhando sob um contrato de trabalho, você pode solicitá-lo. Você pode ou buscar informações online e descobrir por si mesmo todos os documentos que você precisa (embora possa ser mais complicado para não-alemães), ou contratar um consultor (Steuerberater) que irá aconselhá-lo quanto ao que fazer para receber o maior valor possível.

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Espero que essas dicas esclareçam algumas dúvidas e tornem a sua nova vida na Alemanha um pouco mais fácil. Após a fase inicial de se instalar, tudo fica mais leve. Willkommen! 🙂

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A estranha sensação de ter dois lares

Às vezes é como se eu vivesse em dois universos paralelos. Os dois mundos são extremamente reais, complexos, meus, mas muito diferentes.

Um guarda a minha família, meus amigos mais antigos, meu passado, minhas lembranças, minha base. O outro é o meu presente, meu dia-a-dia, minha rotina, minhas novidades, meus amigos mais recentes (mas já nem tão recentes assim), meu agora.

Eu tenho um endereço, uma conta bancária e um número de celular em cada um dos meus mundos. Coisas materiais que dão a impressão de que a gente está ancorado em determinado lugar.

Quando acontece de os dois mundos se misturarem (o que não é muito frequente no meu caso), meu cérebro dá um nó. É como se personagens de dois núcleos diferentes da novela de repente se encontrassem. É como assistir aos Jetsons no cenário dos Flintstones. O que é que o meu pai tá fazendo aqui no metrô de Berlim? Como assim a minha amiga de infância, que pertence ao ‘mundo de lá’, tá no meu campo visual junto com a minha amiga do mestrado, que pertence ao ‘mundo de cá’? Uma sensação meio como naquele filme, ‘A Origem’.

Normalmente sou eu que me desloco entre os dois mundos, mas também assim é confuso. Quando eu vou visitar o Brasil, eu estou indo pra casa, ou pra casa dos meus pais? E quando é hora de partir, eu estou deixando a minha casa, ou indo pra casa? Eu sinto que a resposta é: os dois.

Para cada partida, há uma chegada. Depende do ponto de vista.

Quando meu voo ou trem chega na Alemanha, de volta de uma viagem, automaticamente me vem aquela sensação de ‘cheguei em casa’. E quando eu estou viajando em outro país onde não se fala alemão, mas de repente ouço um grupo de turistas falando alemão na rua, estranhamente aquilo me soa familiar… Pra mim, tem som de lar. Estranho, né?

Eu vivi no Brasil até os 22 anos e agora faz 5 que moro na Europa. Considerando como adulto alguém maior de 18 anos de idade, eu chego à conclusão espantosa de que eu já passei maior parte da minha vida adulta na Alemanha, e não no Brasil.

Me mudar pra Europa foi um grande marco na minha vida, daqueles divisores de águas, pelos motivos enumerados aqui. Foi quando o portal se abriu pra toda uma nova dimensão. E agora começa o sexto ano dessa era.

Eu me sinto em casa no Rio e em Berlim. Sou uma habitante orgulhosa de dois mundos, em meio a uma vida multidimensional. Tenho lares em duas cidades, cada uma um mundo por si só.

Curiosidades sobre a Alemanha (parte 1)

Existem tantos fatos ou hábitos da Alemanha que são curiosos/estranhos pra um estrangeiro que essa vai ter que ser uma série de posts, e não só um! hehe

Pra quem já mora aqui há um tempo, como eu, essas coisas já se tornaram completamente normais e hoje em dia passam totalmente despercebidas. Mas quem ainda não é tão familiarizado com a cultura alemã geralmente acha esses fatos bastante confusos ou estranhos.

Vamos começar com 5 deles:

1) A pipoca no cinema é doce

Até tem pipoca salgada aqui, mas a pipoca ‘padrão’, que você encontra pra vender por aí, geralmente é doce. Ir ao cinema e não ter nem a opção de comer pipoca salgada? Como assim?

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2) As notas acadêmicas vão de 1 a 6, sendo 1 a melhor nota

Na Alemanha, o sistema de notas não é de zero a 10, ou de zero a 100. Tampouco é como o sistema A-B-C-D. Funciona assim:

1 = muito bom
2 = bom
3 = satisfatório
4 = suficiente para passar / nota de corte
5 = insuficiente
6 = muito insuficiente / zero

É preciso tirar pelo menos 4 para passar numa prova ou curso. As universidades às vezes nem mencionam a nota 6, já que qualquer número maior que 4 já significa reprovação. As notas também tem uma casa decimal, geralmente com dígitos ímpares. Por exemplo: 1,3 – 1,5 – 1,7 (sendo que 1,3 é melhor do que 1,7). Pros alemães, uma nota 2 é melhor do que uma nota 3. Totalmente contra-intuitivo.

A primeira vez que eu recebi uma nota no mestrado, o email dizia ‘1,0’. Quase tive um mini-infarto. 😀

3) O segundo andar é o primeiro

No Brasil, o andar térreo geralmente é considerado o primeiro andar, o andar acima é o segundo, e assim por diante. Mas na Alemanha, o andar térreo é o ‘andar zero’. E o primeiro andar (número 1) é o que vem acima do térreo. Isso causa muita confusão aos recém-chegados ao país. ‘Me encontre no primeiro andar’ – no início o seu cérebro está treinado pra pensar automaticamente no andar térreo, que é o primeiro andar em que você pisa. Em vários elevadores ou nas grandes lojas de departamento por aqui é possível ver o número zero no letreiro se referindo ao térreo (e às vezes -1 e -2 pro subsolo).

4) Ao entrar na casa de um(a) alemão(ã), você tem que tirar seus sapatos

Esse é talvez o hábito mais tipicamente alemão de todos. Todo e qualquer alemão tira os sapatos assim que entra em casa, ainda na porta, e coloca um par de ‘sapatos de ficar em casa’, ou anda de meias. Eles fazem o mesmo quando vão visitar alguém, e esperam isso de você quando vai visitá-los. Eu, que não sou muita fã de andar descalça, tenho que lembrar de conferir que as minhas meias não estão furadas antes de ir visitar algum amigo aqui! hehe

O intuito desse hábito é manter a higiene e não trazer sujeira de fora pra dentro de casa – o que é bastante compreensível. Mas esse costume está tão incorporado no DNA dos alemães que eles o seguem à risca mesmo quando não faz o menor sentido. Como no caso de festas dentro de casa, por exemplo. Festa sempre causa alguma sujeirinha e bagunça, e o apartamento vai ter que ser limpo depois de qualquer forma. Que diferença vai fazer se os convidados tirarem os sapatos? 😛

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“Tirem os sapatos” = assim começa uma festa alemã caseira (obs: tinham muitos outros sapatos que nem couberam na foto)

5) Os alemães amam bebida com gás

Eu disse ‘amam’? Eu quis dizer NÃO VIVEM SEM. Na Alemanha não existem só duas, mas três opções de água mineral: Still, Medium e Classic. Imagine você um turista ou recém-chegado no país que só quer matar a sede e encontra 3 tipos de água à venda. Qual deve ser a sem gás? A que diz ‘Classic’, certo? ERRADO. Clássico na Alemanha é água com gás. Vai entender… Still é sem gás, e Medium com um pouco de gás (pra você ver o quanto eles levam isso a sério).

Por aqui a água da torneira é potável e própria para beber – e mesmo assim, alguns alemães não abrem mão de comprar água com gás no supermercado (e ainda carregam aquele peso pra casa). Aqui tem até um eletrodoméstico que transforma água normal em água gaseificada! O vício é forte.

Quatro anos na Europa… Mas quanto tempo são 4 anos?

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Eu gosto de simbolismos. Outro dia eu estava olhando pra minha borracha (sim, a borracha que eu uso para apagar quando escrevo a lápis), e pensei: ‘nossa, como a minha borracha está velhinha e minúscula!’. Quase não dá mais pra segurá-la na hora de apagar. E aí eu me lembrei que eu comprei essa exata borracha logo antes de me mudar pra Europa. Eu devo ter pensado ‘estou indo fazer um mestrado fora, preciso de uma borracha decente’. Quatro anos mais tarde, ela continua sendo minha fiel companheira apagadora.

Se você sempre se perguntou como uma borracha fica depois de 4 anos de uso, é mais ou menos assim:

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Minha borracha: antes (meramente ilustrativo) e depois (real)

Além de simbolismos, eu também gosto de retrospectivas e de comparações. Elas me ajudam a observar e avaliar o decorrer das coisas de uma perspectiva mais ampla. Me mudar pra Europa foi um grande marco de ‘antes e depois’ na minha vida. E a borracha comprada justamente nesse marco me possibilitou (totalmente sem querer) observar como um objeto mudou desde que eu vim parar aqui.

Há 4 anos, eu:
a) saí da casa dos meus pais
b) fui morar sozinha (e pagar todas as minhas contas)
c) me mudei pra Europa
d) me formei na faculdade e comecei o mestrado

Tudo ao mesmo tempo. Às vezes a gente começa a se bancar sozinho mas continua morando com os pais; ou sai de casa mas fica na mesma cidade; ou vai até pra outro país mas pra morar com outra pessoa. Eu, pelo que parece, fui logo batendo todas essas metas de uma só vez.

Hoje o blog faz 1 ano. Eu decidi começá-lo quando percebi que já ia fazer 3 anos que eu estava morando na Europa e tinha muita coisa pra contar. E agora, mais um ano pra conta. Quatro no total.

Mas quanto tempo são quatro anos?

Bem, quatro anos é o tempo que leva pra consumir uma borracha nova quase por inteiro.

É a duração de uma faculdade, ou de um doutorado (no Brasil). É o tempo entre duas Olimpíadas, Copas do Mundo, eleições presidenciais, anos bissextos. Quando eu cheguei à Europa, os jogos olímpicos de Londres 2012 estavam acabando, e agora o mesmo está acontecendo com os do Rio 2016. A partir de agora, eu não vou mais assistir a nenhum dos grandes eventos mundiais regulares pela primeira vez desde que vim pra Europa – todos eles vão passar a ser repetidos. É assim que você se dá conta de que quatro anos é bastante coisa.

Mas ao mesmo tempo, quatro anos não é nada. Passa muito rápido.

Eu não sei o que o futuro me reserva, não sei quantos aniversários mais ainda farei na Europa… Só sei que aprendi MUITO nesses últimos 4 anos, e sou extremamente grata por tudo o que vivi aqui até agora.

E quanto à minha borracha, ela continua funcionando e é usada diariamente.

“Como você faz para viajar tanto?”

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Em primeiro lugar, eu não acho que eu viaje tanto. Eu com certeza não viajo tanto quanto gostaria. Eu não sou uma viajante em tempo integral – viajo apenas no meu tempo livre (afinal, estou fazendo um doutorado). Mas, mesmo assim, eu ouço essa pergunta frequentemente. Acho que pode-se dizer que eu consegui viajar um bocado nesses últimos anos, em paralelo ao mestrado e doutorado. (Para um resumo das minhas viagens em 2015, clique aqui).

Então, decidi tentar responder a essa pergunta: como é que eu consigo viajar tanto quanto eu viajo? Afinal, para viajar são necessárias basicamente duas coisas: tempo e dinheiro. E estudantes não possuem nenhum dos dois. Então, como funciona?

Minha primeira resposta a isso é: PRIORIDADE.

No meu tempo de lazer, fora do trabalho, viajar é minha prioridade. É o que eu mais gosto de fazer quando tenho um tempo livre. Claro, eu tenho outros hobbies, como dançar, escrever e aprender idiomas. Mas estes eu posso fazer a qualquer momento, em dias úteis após o trabalho. Então, quando eu tenho aquele tempo livre extra, como fins de semana e feriados, eu trato de usá-lo da forma que acho melhor: visitando novos lugares.

Algumas pessoas preferem usar seu tempo livre descansando em casa, ou indo à academia, ou aproveitando para ler um livro, por exemplo. E não há problema algum nisso – cada um deve fazer o que o faz feliz. Eu? Eu gosto de usar todo o meu tempo livre para viajar – se possível para algum destino novo.

Então um dos principais motivos pelos quais eu ‘me viro’ para viajar tanto é porque eu vejo isso como uma prioridade para o meu tempo de lazer.

Dito isso, ainda temos 2 problemas: falta de tempo e de dinheiro.

Problema #1: TEMPO

“É fácil para VOCÊ viajar, porque você mora na Europa”.

Claro, viver na Europa, como eu, facilita muito viajar frequentemente. É muito prático visitar países diferentes por aqui, pela proximidade e preços acessíveis de voos, trens e ônibus. MAS… há um porém. Se você é um estrangeiro vivendo na Europa como eu, você provavelmente gasta a maior parte dos seus dias de férias indo para o seu país de origem. Sim, isso é ótimo, e inclusive necessário para a minha sanidade mental (de novo, prioridades!), e eu não faria diferente. Mas ir pra casa não conta exatamente como viajar de verdade para mim, porque eu cresci lá, e não é novidade.

Eu posso tirar 30 dias úteis de férias no trabalho por ano, sem contar fins de semana e feriados. Geralmente eu vou ao Brasil uma vez por ano, e gasto por volta de 20 dos meus dias úteis de férias lá. Isso significa que ⅔ das minhas férias se vão só com a ida ao Brasil. E quando eu eventualmente vou duas vezes no ano (como farei esse ano para ir a um casamento), sobra ainda menos tempo de férias para conhecer novos destinos – por volta de 5 dias por ano só!

Em suma: não se engane – pode parecer mais fácil para mim viajar para lugares novos porque eu moro na Europa, mas na realidade eu não tenho tanto tempo assim disponível para isso.

Então como eu lido com o problema de ter tão pouco tempo? Eu basicamente tento aproveitar ao máximo esse pouco que eu tenho.

“Eu não posso fazer [insira qualquer coisa aqui] porque não tenho tempo”.

Isso NÃO É VERDADE. Todo mundo tem tempo, mesmo que pouco. O que varia de pessoa para pessoa é o que ela decide fazer com o seu tempo. Você não deixa de fazer alguma coisa porque não tem tempo – você deixa de fazer porque você não está disposto a gastar o tempo que você tem fazendo aquilo. (Talvez porque não seja prioridade sua.)

Como dito antes, eu normalmente tenho apenas uns 5 a 10 dias por ano para viagens, dependendo se eu vou ao Brasil uma ou duas vezes no ano. Porém… a boa notícia é que esses são apenas dias úteis – ainda tem fins de semana e feriados que não entram na conta. Então eu tento aproveitar AO MÁXIMO os feriados e fins de semana prolongados que a Alemanha me oferece. E, acredite, eles não são nada frequentes – pelo menos comparado ao Brasil.

O que eu faço é: eu planejo com antecedência e acomodo diferentes viagens nos feriados que eu sei que vou ter durante o ano. O calendário é fixo e você pode obter essas informações com bastante antecedência, então use-as para sua vantagem. Você muito provavelmente não vai me encontrar em Berlim durante um feriadão (a não ser que algo excepcional esteja acontecendo na cidade). Pra mim, isso seria um certo desperdício. Não me interprete mal – eu AMO Berlim e ainda há muito que eu quero ver e fazer aqui, mas a minha lógica é: eu posso passear na cidade onde moro em qualquer fim de semana comum. Fins de semana prolongados? Esses são raros e preciosos, e devem ser usados com sabedoria.

Se você mora no Brasil ou na América do Norte ou na Austrália, por exemplo, não é tão fácil visitar outro país durante um feriadão. A distância é enorme, e os preços não ajudam. Vivendo na Europa, eu geralmente faço diversas viagens curtas ao longo do ano. Mas, se você não vive aqui, talvez possa fazer menos viagens por ano, mas por períodos de tempo mais longos. Ou ao invés de viagens para o exterior, você pode explorar o seu próprio país. Esses são apenas estilos diferentes de viajar, mas possíveis e prazerosos de qualquer forma. Além do mais, no Brasil existem tantos feriadões – às vezes 11 por ano! – então faça bom uso deles.

Problema #2: DINHEIRO

Esse ponto não é tão problemático assim contanto que você esteja disposto a fazer viagens de baixo orçamento. Voos em promoção, hotéis e pensões simples, ônibus, albergues, etc. No atual momento da minha vida, eu não me importo em ficar em um dormitório com banheiro compartilhado por algumas noites. Eu não me importo em comer fast-food eventualmente, ou em usar uma cozinha para fazer algo simples. Eu também não me importo de voar em aviões menos confortáveis dentro da Europa e de levar só uma mala de mão. Provavelmente no futuro eu vou querer mais conforto, de acordo com a minha idade e condição financeira, mas não agora. Porque eu sei que tudo isso significa economizar MUITO.

Como uma boa brasileira, eu gosto de me certificar de que estou pagando os melhores preços. Não é que eu seja ‘mão-de-vaca’ quando estou viajando – eu tenho prazer em pagar uma boa refeição ou uma experiência que eu acredite que valha a pena. Mas eu não gosto de gastar a mais em coisas que podem ser evitadas.

“Gaste dinheiro em experiências, não em coisas.”

A resposta final para tudo: PLANEJAMENTO

Eu ❤ planejar. Eu acredito firmemente que, planejando com antecedência, se consegue a melhor relação custo/benefício. E eu acho que sei porque eu amo tanto fazer planos. Eu sou uma pessoa muito ansiosa, e planejar me proporciona a sensação de que eu estou de alguma forma no controle da minha vida e do futuro. Claro, isso nem sempre é verdade, e só é possível planejar certas coisas. Mas, felizmente, uma viagem é uma dessas coisas que se pode planejar em grande parte.

Planejando com antecedência, você consegue acomodar uma ou mais viagens no pouco tempo livre que você tem por ano, além de economizar dinheiro. Pronto: uma solução para os nossos dois problemas.

Resumindo:

  • Defina quais são suas prioridades para o seu tempo livre. Descubra o que você mais ama fazer. (E experimente coisas novas. Essa é a única forma de realmente descobrir o que você gosta de fazer.)
  • Voce tem sim tempo livre – use-o com sabedoria (nas suas prioridades).
  • Se viajar é uma prioridade para o seu tempo de lazer, planeje com antecedência para otimizar tempo e dinheiro.

“Beleza, planejar uma viagem parece vantajoso e fácil na teoria, mas como você faz na prática?”

Veja a resposta no próximo post aqui:
Como eu planejo minhas viagens (com pouco tempo e dinheiro)

Como é morar em Berlim

Foto por Mari Cerdeira
Foto por Mari Cerdeira

Berlim é uma cidade: grande, cosmopolita, jovem, alternativa, agitada, relaxada, descolada.

Tem gente de todas as tribos. No metrô você vê uma garota de cabelo azul ao lado de uma criança branca e loira, ao lado de um cara de rastafari, ao lado de uma família turca, ao lado de turistas espanhois. Berlim é diversidade!

Berlin foi inclusive eleita a cidade mais divertida do mundo.

Morar em Berlim é sempre ter o que fazer. É descobrir a cada fim de semana algum lugar legal que você ainda não conhecia.

É morar numa cidade barata! E com uma lei que limita os valores de aluguel.

A Alemanha é um país barato, para os padrões da Europa ocidental. E, dentro da Alemanha, o custo de vida em Berlim é bem mais baixo que o de outras cidades como Munique ou Hamburgo por exemplo.

‘’Berlim não é Alemanha’’

Berlim é muito diferente do sul da Alemanha. Não é conservadora, nem tão certinha. E também não é tão rica.

É uma cidade que está bombando e se transformando neste exato momento. É muito diferente do que era há 20 anos atrás, e vai ser muito diferente daqui a 20 anos.

Tem uma cultura urbana e artística muito forte. E restaurantes de todos os países. E baladas super renomadas. Principalmente pra quem curte música eletrônica – é o que mais tem por aqui.

É morar numa cidade com mil faces. Tem bairros que são super residenciais, outros super turísticos, outros super alternativos, outros super chiques. Berlim é o resultado de uma mistura incrível de vários elementos.

‘’Berlim é a Nova York da Europa’’

É uma cidade com um transporte público super eficiente, que cobre todos os lugares. E que não tem catracas.

Morar em Berlim é voltar da night de metrô. Isso porque durante o fim de semana todo o transporte público funciona 24 horas. (!!!!) E em dias de semana? O metrô fecha por volta da 1 da manhã, mas ainda tem ônibus a noite toda. Só pega táxi quem quer.

É uma cidade plana, ótima pra se locomover de bicicleta também.

Em geral é bastante segura, mas por ser uma cidade grande tem furtos SIM, e tem que ficar ligado.

É uma cidade com muito verde, parques e lagos (40% de toda a área da cidade!).

Saindo só um pouquinho de Berlim já parece outro mundo. Dá pra morar pertinho da agitação da cidade e ainda ter uma casa com quintal estilo filme americano.

É uma cidade que transpira história.

Muita gente fala inglês, mas nem todo mundo.

É uma cidade onde a temperatura pode marcar de -7 a 37 graus Celsius.

Uma cidade com várias estações de trem, uma estação central gigantesca, e 2 aeroportos (porque o aeroporto que vai substituir os dois existentes não fica pronto nunca).

É morar numa cidade que se transforma quando chega a primavera e verão. O sol e o calor mudam completamente a vibe da cidade. Todo mundo vai pra rua, o sol se põe bem mais tarde, tem festivais e eventos ao ar livre pra todos os lados…


Dá pra perceber que eu gosto de morar em Berlim, ou tá pouco? =)

7 pensamentos para minimizar a saudade do Brasil

saudade

“Tudo bem que você adora morar lá e já está muito bem adaptada, mas… você não morre de saudade de casa?”

Essa é uma das perguntas mais frequentes feitas a quem mora no exterior. E comigo não é diferente.

A resposta que sempre dou é: claro que dá saudade da família, dos amigos, do clima, da comida, e do Brasil em si. Tem dias em que bate mais forte do que em outros. Mas em geral é uma saudade tolerável, e não determinante.

Porque ao longo do tempo a gente acaba desenvolvendo “técnicas” para lidar com a saudade. E eu vou contar pra vocês as minhas. São pontos que eu tento lembrar a mim mesma quando a saudade tenta me invadir.

1. A vida é feita de escolhas

“Ou isto, ou aquilo”, já dizia Cecília Meireles.

Uma das coisas que mais ativa a saudade é ficar pensando em tudo de bom que se está “perdendo” na sua cidade natal. De fato, tem muita coisa legal acontecendo lá na sua ausência, porém, é uma troca: você está deixando de viver várias coisas lá para viver várias outras aqui. É preciso focar em tudo o que se está ganhando por estar ali, ao invés daquilo que se está perdendo no Brasil. Seja feliz no aqui e agora.

“É chocante e libertador – ninguém precisa de você pra seguir vivendo.”
(Texto de Antônia no Divã)

“Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!”

Cecília Meireles
(resumindo a história da minha vida)

2. Minha vida no exterior me satisfaz

Para o método #1 funcionar, é imprescindível estar satisfeito com o novo lar. Claro que nenhum lugar é perfeito, e não-tá-fácil-pra-ninguém, mas é importante saber claramente os seus motivos e objetivos para estar morando onde você mora. Para quem vive em em outro país por obrigação e não por escolha própria, ou odeia o trabalho que tem, ou deixou um parceiro no Brasil, a saudade tende a parecer mil vezes maior. É essencial gostar de morar na sua nova cidade (se possível, amar) e construir uma vida que te dê prazer, incluindo casa, trabalho, amigos, vida social e hobbies.

3. Sair da zona de conforto faz parte da experiência

Como dito no #1, pensar em tudo o que é melhor no Brasil causa saudade. Da mesma forma, pensar em tudo o que é pior no seu novo lar também provoca comparações e, consequentemente, saudade.

Dizem que é preciso ter ‘mente aberta’ para viver no exterior, e como é verdade! O inverno na Europa é frio pra caramba? SIM. Eu odeio frio? Muito! Mas eu estou disposta a tentar conviver com ele, por alguns meses do ano. Alguns alemães são grossos? Com certeza. Mas isso me faz desenvolver maneiras de me comunicar com tipos diferentes de pessoas – eu que estava acostumada a lidar só com pessoas sorridentes. Tudo é uma questão de ponto de vista.

Tem gente que não gosta de mudanças e simplesmente não quer se adaptar. E tudo bem! Cada um com a sua personalidade. Mas quem quer ser feliz ao morar no exterior precisa estar disposto a viver de forma diferente. Eu sofro de verdade por não comer arroz com feijão todo dia? Na verdade, não.

4. Internet, eu te amo!

Nessa era maravilhosa de tecnologia e globalização, fica muito fácil e prático manter contato internacional. Eu procuro estar sempre atualizada sobre a vida dos meus amigos, mesmo longe. Procuro saber como eles estão, o que andam fazendo e quais seus planos futuros. E sempre que eu vejo alguma coisa que me faz lembrar alguém, ou tenho algo a dizer, eu mando na mesma hora um áudio, um link, ou uma foto.

“Ah, mas não é a mesma coisa falar com um amigo por Skype, Whatsapp ou Facebook…
Pessoalmente é muito melhor.”

COM CERTEZA pessoalmente é muito melhor, e não há rede social que possa substituir um abraço, ou a sua presença em carne e osso no casamento do seu primo, ou no almoço de dia dos pais. Sem dúvida. Isso é indiscutível. Mas… já é uma GRANDE ajuda. Eu converso com os meus pais no Skype pelo menos umas 3 vezes por semana. Minha mãe inclusive diz que eu converso mais com ela quando estou no exterior do que quando estou de visita no Brasil, quando eu tenho que dividir a atenção entre tantos parentes e amigos (risos). O que me leva ao quinto ponto…

5. Daqui a pouco chega a hora de visitar o Brasil

E que hora mais feliz!!!

Eu tento ir ao Brasil pelo menos uma vez por ano. E, tendo muitos amigos e familiares e só algumas semanas para visitar, eu tento otimizar o meu tempo ao máximo. Cada horário de cada dia é destinado a visitar alguém e/ou algum lugar e/ou comer alguma comida brasileira. Se possível, todas as opções juntas.

Eu também prefiro ir para o Natal e Ano Novo porque é justamente nessa época em que a maioria das pessoas se reencontra para festas de fim de ano e confraternizações. Assim fica muito mais fácil rever diferentes grupos de amigos e matar a saudade de várias pessoas queridas ao mesmo tempo. Aproveitar bem cada visita é essencial (e suficiente) para conseguir ‘’zerar’’ a saudade – pelo menos por algum tempo.

6. Não é só porque eu moro longe que eu não vejo todos os seus amigos o tempo todo

Quando eu estou no Brasil revendo um grupo de amigos, é muito comum eu ouvir:

“Sabe, eu encontro você só uma vez por ano, mas parando pra pensar… eu encontro esses outros amigos aqui umas 2, no máximo 3 vezes por ano. E olha eles moram na mesma cidade que eu.”

Esse é um fato que, apesar de lamentável, me conforta. Eu tento me lembrar disso quando eu penso que lá no Brasil todo mundo se reúne o tempo inteiro e só eu estou longe, excluída. A verdade é que todo mundo tem a sua vida, seu trabalho, sua rotina, e nem sempre consegue se encontrar, mesmo vivendo perto (o que é uma pena). E quando eu estou de visita no Brasil, os meus amigos fazem uma forcinha extra para me encontrar, porque sabem que eu não estou lá sempre. Olha que privilégio!

Fora que muitas vezes os meus amigos no Brasil estão se comunicando entre si por… isso mesmo, Whatsapp e Facebook! Da mesma maneira que eu com eles.

Este é o meu lembrete “se é que serve de consolo”.

7. O que é verdadeiro permanece

Todos nós mudamos com o tempo – seja quem mora no exterior ou no Brasil. Pessoas mudam, circunstâncias mudam, mas amizades não necessariamente. Toda vez que eu vou ao Brasil eu tenho a sorte de ver de perto que a minha relação com amigos e familiares queridos não mudou. Pode passar o tempo que for: quando eu os encontro, parece que estive sempre ali.

E aí eu penso: UFA! =)

“Amizade verdadeira não é ser inseparável,
é estar separados e nada mudar”

Essa é uma certeza maior do que qualquer saudade.