As fases da aprendizagem de um idioma

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Parando para fazer as contas, eu já passei mais de 16 anos (uns 60% da minha vida) aprendendo 3 línguas estrangeiras. Sempre estudei idiomas paralelamente à minha atividade principal (escola, universidade, trabalho) e, por falta de tempo, infelizmente nunca de forma intensiva ou
full-time. E eu sinto que passo por diferentes fases no processo de aprendizagem de um novo idioma. Nada que seja verdade absoluta ou comprovado cientificamente – apenas uma conclusão tirada a partir de observações pessoais. Para exemplificar vou usar o alemão, que estou estudando agora.

Fase 1: O choque inicial

A fase de teste. Você acabou de começar a aprender uma língua. Tudo é novo. Ainda não sabe direito o que esperar, e é cedo demais para dar um veredito. A princípio, o idioma parece muito mais complicado do que você imaginava.
Pensamentos frequentes:

  • Se logo nas primeiras aulas de alemão eu aprendi que “com licença” é ENTSCHULDIGUNG – imagina as bombas que ainda vêm por aí!
  • Quem foi mesmo que disse que alemão é parecido com inglês?!
  • Será que algum dia eu vou ser capaz de dizer com segurança que eu falo esse idioma?

Fase 2: O progresso exponencial

O susto inicial passou. Você já se conformou que alemão tem 4 casos, 3 gêneros, dezena e unidade invertidas, verbos no final das frases e palavras gigantes. Não te surpreende mais. Já pegou o jeito. A cada aula você está aprendendo algo novo. Você sente na pele que está melhorando todos os dias, o que te dá motivação para continuar. Consegue até falar um pouco na rua e entende o que os outros estão falando, pelo menos o contexto.
Pensamentos frequentes:

  • Olha só, eu consegui entender essa piada da Internet em alemão! Que incrível!
  • Claro, eu ainda não sei tudo e cometo muitos erros, mas isso é de se esperar, pelo nível em que eu estou.
  • Até que alemão não é tão difícil assim.

Fase 3: A bipolaridade: orgulho x frustração

Você já está estudando aquele idioma há alguns anos e agora está em um nível avançado. Toda a gramática já foi dada em aula, não há muitos tópicos novos, é praticamente tudo revisão e exercício. Não é todo dia que você sente que aprendeu algo novo, o que pode ser frustrante. Você consegue se comunicar, se vira muito bem, conversa com todo mundo, mas ainda não está 100% confiante, comete erros e te falta vocabulário. Você sente que SABE, mas não tanto quanto você gostaria. A cobrança pessoal e a expectativa dos outros são grandes, pelo tempo decorrido. Às vezes, você acha que sabe muito e se sente super confortável com o idioma. Outras vezes, pensa que há tanta coisa que ainda não sabe e que falta muito para alcançar a proficiência. Se te perguntam se você fala alemão, a resposta é: SIM – mas não completamente fluente. Os seus amigos alemães sempre elogiam a sua capacidade no idioma e isso te deixa orgulhoso. Você tenta se lembrar dessa sensação positiva para se manter motivado.
Pensamentos frequentes:

  • Nossa, eu acabei de ter uma discussão sobre um tema complicado em alemão… Não sabia que era capaz disso tudo.
  • Por que eu cometi esse erro idiota? Eu já deveria saber isso.

Fase 4: Enfim, a naturalidade da proficiência

Você agora se garante. Pode conversar com qualquer nativo sem problemas. Conhece termos difíceis e específicos. Você vive o idioma. A construção das frases sai naturalmente, não tem que ficar pensando antes de falar ou escrever. Se comete erros, percebe imediatamente e os corrige. Você geralmente só percebe que está nesse estágio depois de estar nele um certo tempo.


Se colocarmos essas fases na famosa “curva de aprendizagem”, fica assim:
fases aprendizagem

Eu estou na fase 3 do alemão, sonhando com a 4. Como infelizmente não tenho todo o tempo do mundo para me dedicar ao estudo da língua, tento buscar um equilíbrio entre o perfeccionismo e a conformação. Constantemente eu tenho que lembrar a mim mesma que eu devo sempre tentar me aperfeiçoar, mas sem cobrar tanto de mim. A chave é a exposição constante ao idioma. Devagar e sempre.

7 pensamentos para minimizar a saudade do Brasil

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“Tudo bem que você adora morar lá e já está muito bem adaptada, mas… você não morre de saudade de casa?”

Essa é uma das perguntas mais frequentes feitas a quem mora no exterior. E comigo não é diferente.

A resposta que sempre dou é: claro que dá saudade da família, dos amigos, do clima, da comida, e do Brasil em si. Tem dias em que bate mais forte do que em outros. Mas em geral é uma saudade tolerável, e não determinante.

Porque ao longo do tempo a gente acaba desenvolvendo “técnicas” para lidar com a saudade. E eu vou contar pra vocês as minhas. São pontos que eu tento lembrar a mim mesma quando a saudade tenta me invadir.

1. A vida é feita de escolhas

“Ou isto, ou aquilo”, já dizia Cecília Meireles.

Uma das coisas que mais ativa a saudade é ficar pensando em tudo de bom que se está “perdendo” na sua cidade natal. De fato, tem muita coisa legal acontecendo lá na sua ausência, porém, é uma troca: você está deixando de viver várias coisas lá para viver várias outras aqui. É preciso focar em tudo o que se está ganhando por estar ali, ao invés daquilo que se está perdendo no Brasil. Seja feliz no aqui e agora.

“É chocante e libertador – ninguém precisa de você pra seguir vivendo.”
(Texto de Antônia no Divã)

“Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!”

Cecília Meireles
(resumindo a história da minha vida)

2. Minha vida no exterior me satisfaz

Para o método #1 funcionar, é imprescindível estar satisfeito com o novo lar. Claro que nenhum lugar é perfeito, e não-tá-fácil-pra-ninguém, mas é importante saber claramente os seus motivos e objetivos para estar morando onde você mora. Para quem vive em em outro país por obrigação e não por escolha própria, ou odeia o trabalho que tem, ou deixou um parceiro no Brasil, a saudade tende a parecer mil vezes maior. É essencial gostar de morar na sua nova cidade (se possível, amar) e construir uma vida que te dê prazer, incluindo casa, trabalho, amigos, vida social e hobbies.

3. Sair da zona de conforto faz parte da experiência

Como dito no #1, pensar em tudo o que é melhor no Brasil causa saudade. Da mesma forma, pensar em tudo o que é pior no seu novo lar também provoca comparações e, consequentemente, saudade.

Dizem que é preciso ter ‘mente aberta’ para viver no exterior, e como é verdade! O inverno na Europa é frio pra caramba? SIM. Eu odeio frio? Muito! Mas eu estou disposta a tentar conviver com ele, por alguns meses do ano. Alguns alemães são grossos? Com certeza. Mas isso me faz desenvolver maneiras de me comunicar com tipos diferentes de pessoas – eu que estava acostumada a lidar só com pessoas sorridentes. Tudo é uma questão de ponto de vista.

Tem gente que não gosta de mudanças e simplesmente não quer se adaptar. E tudo bem! Cada um com a sua personalidade. Mas quem quer ser feliz ao morar no exterior precisa estar disposto a viver de forma diferente. Eu sofro de verdade por não comer arroz com feijão todo dia? Na verdade, não.

4. Internet, eu te amo!

Nessa era maravilhosa de tecnologia e globalização, fica muito fácil e prático manter contato internacional. Eu procuro estar sempre atualizada sobre a vida dos meus amigos, mesmo longe. Procuro saber como eles estão, o que andam fazendo e quais seus planos futuros. E sempre que eu vejo alguma coisa que me faz lembrar alguém, ou tenho algo a dizer, eu mando na mesma hora um áudio, um link, ou uma foto.

“Ah, mas não é a mesma coisa falar com um amigo por Skype, Whatsapp ou Facebook…
Pessoalmente é muito melhor.”

COM CERTEZA pessoalmente é muito melhor, e não há rede social que possa substituir um abraço, ou a sua presença em carne e osso no casamento do seu primo, ou no almoço de dia dos pais. Sem dúvida. Isso é indiscutível. Mas… já é uma GRANDE ajuda. Eu converso com os meus pais no Skype pelo menos umas 3 vezes por semana. Minha mãe inclusive diz que eu converso mais com ela quando estou no exterior do que quando estou de visita no Brasil, quando eu tenho que dividir a atenção entre tantos parentes e amigos (risos). O que me leva ao quinto ponto…

5. Daqui a pouco chega a hora de visitar o Brasil

E que hora mais feliz!!!

Eu tento ir ao Brasil pelo menos uma vez por ano. E, tendo muitos amigos e familiares e só algumas semanas para visitar, eu tento otimizar o meu tempo ao máximo. Cada horário de cada dia é destinado a visitar alguém e/ou algum lugar e/ou comer alguma comida brasileira. Se possível, todas as opções juntas.

Eu também prefiro ir para o Natal e Ano Novo porque é justamente nessa época em que a maioria das pessoas se reencontra para festas de fim de ano e confraternizações. Assim fica muito mais fácil rever diferentes grupos de amigos e matar a saudade de várias pessoas queridas ao mesmo tempo. Aproveitar bem cada visita é essencial (e suficiente) para conseguir ‘’zerar’’ a saudade – pelo menos por algum tempo.

6. Não é só porque eu moro longe que eu não vejo todos os seus amigos o tempo todo

Quando eu estou no Brasil revendo um grupo de amigos, é muito comum eu ouvir:

“Sabe, eu encontro você só uma vez por ano, mas parando pra pensar… eu encontro esses outros amigos aqui umas 2, no máximo 3 vezes por ano. E olha eles moram na mesma cidade que eu.”

Esse é um fato que, apesar de lamentável, me conforta. Eu tento me lembrar disso quando eu penso que lá no Brasil todo mundo se reúne o tempo inteiro e só eu estou longe, excluída. A verdade é que todo mundo tem a sua vida, seu trabalho, sua rotina, e nem sempre consegue se encontrar, mesmo vivendo perto (o que é uma pena). E quando eu estou de visita no Brasil, os meus amigos fazem uma forcinha extra para me encontrar, porque sabem que eu não estou lá sempre. Olha que privilégio!

Fora que muitas vezes os meus amigos no Brasil estão se comunicando entre si por… isso mesmo, Whatsapp e Facebook! Da mesma maneira que eu com eles.

Este é o meu lembrete “se é que serve de consolo”.

7. O que é verdadeiro permanece

Todos nós mudamos com o tempo – seja quem mora no exterior ou no Brasil. Pessoas mudam, circunstâncias mudam, mas amizades não necessariamente. Toda vez que eu vou ao Brasil eu tenho a sorte de ver de perto que a minha relação com amigos e familiares queridos não mudou. Pode passar o tempo que for: quando eu os encontro, parece que estive sempre ali.

E aí eu penso: UFA! =)

“Amizade verdadeira não é ser inseparável,
é estar separados e nada mudar”

Essa é uma certeza maior do que qualquer saudade.